A agorafobia, manifesta-se por um medo persistente em frequentar espaços públicos. Espaços com muitas pessoas de onde não se consegue fugir (transportes públicos, multidões, centros comerciais, salas de espetáculo, etc.), locais isolados onde se teme não poder ser socorrido (túneis, pontes, parque estacionamento). O agorafóbico, no intuito de evitar situações de pânico, reduz pouco a pouco o perímetro das suas saídas e procura sair acompanhado. A perturbação pode agravar-se ao ponto de obrigar a pessoa a ficar confinada à casa e a só conseguir sair em companhia de uma pessoa chegada, muitas vezes a mãe.


Talvez não seja por acaso que a agorafobia surja por volta dos vinte anos, na idade da autonomia. Parece estar associada a uma separação na infância, a uma perda súbita que não pode ser gerida. O medo de voltar a perder torna as pessoas muito dependentes. Os agorafóbicos têm dificuldade em se afirmar, em dizer não aos pais. No final da adolescência, a perspetiva de uma vida independente reativa os sentimentos de pânico ligados à perda sofrida muito cedo e sem acompanhamento emocional. A tudo isto, acresce uma raiva terrível contra o progenitor culpado por este abandono precoce. Esta raiva mantém-se indizível, com medo de voltar a perder essa pessoa de que tem tanta necessidade. Uma maneira de a fazer «pagar» é obrigá-la a acompanhá-lo para todo o lado, carregar com o seu peso, para verificar a importância que tem para ela e ao mesmo tempo vingar-se do prejuízo sofrido. Pode eleger-se uma pessoa para a substituir por exemplo, o cônjuge em vez da mãe.


A situação do agorafóbico, é tanto mais complexa quanto o progenitor escolhido para acompanhá-lo é muitas vezes uma ligação de dependência fusional, apresentando ele mesmo necessidades afetivas insaciadas. O ganho afetivo deste é que é o agorafóbico que tem a totalidade da «doença», quando se trata na realidade de uma perturbação «a dois». O acampanhante beneficia inconscientemente desta situação de dependência do seu protegido; não é confrontado com a solidão, sente a sua utilidade atual e serve-se dela para se desculpabilizar do abandono antigo. Algumas pessoas dissimulam assim a sua própria ansiedade, protegendo alguém que tem ainda mais medo do que elas. Para se libertar dos seus medos, o agorafóbico precisa de se curar da sua angústia de separação (e para isso tem de reconhecê-la), de exprimir as emoções recalcadas de angústias, de furor e de tristeza e de aprender progressivamente a afirmar-se como uma pessoa independente.



by Paula Norte, psicóloga clínica @psicomindcare





foto: Milada Vigerova on Unslash






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